O Presidente da República de Angola e líder em exercício da União Africana (UA), João Lourenço, apresentou, esta segunda-feira, em Luanda, novas propostas diplomáticas para acelerar o alcance da paz definitiva no Leste da República Democrática do Congo (RDC), durante um encontro de trabalho com o seu homólogo congolês, Félix Tshisekedi, no Palácio da Cidade Alta.
Embora o conteúdo das propostas não tenha sido tornado público, o Chefe de Estado da RDC considerou-as “interessantes” e potencialmente decisivas para o processo de pacificação de uma região marcada por décadas de conflito armado.
“Tive uma conversa muito boa com o Senhor Presidente. Como homem de iniciativas, apresentou-me algumas propostas de paz que, por agora, prefiro não revelar, mas posso dizer que tivemos um diálogo muito produtivo”, afirmou Félix Tshisekedi, no final do encontro.
Segundo o estadista congolês, as iniciativas de João Lourenço não se afastam dos Acordos de Washington e de Doha, antes procuram reforçá-los e ampliar as suas possibilidades de implementação, afastando qualquer leitura de ruptura com os mecanismos internacionais já em curso.
“O Presidente João Lourenço não pretende sair do quadro de Washington e de Doha. O seu objectivo é reforçar essas iniciativas e abrir novas saídas para uma paz duradoura”, esclareceu Tshisekedi.
Angola no centro da mediação regional
Esta foi a segunda visita de trabalho de Félix Tshisekedi a Angola em menos de três meses, num contexto marcado pela persistência da instabilidade no Leste da RDC, apesar da assinatura, a 4 de Dezembro do ano passado, dos Acordos de Washington, mediada pelos Estados Unidos da América e testemunhada por vários líderes africanos, incluindo João Lourenço, na qualidade de Presidente em exercício da União Africana.
O acordo, assinado por Félix Tshisekedi e Paul Kagame, Presidente do Rwanda, visava pôr fim à guerra na região dos Grandes Lagos, um objectivo que continua por concretizar, face à continuidade das hostilidades no terreno.
Ao intervir na cerimónia de assinatura, João Lourenço lamentou que um conflito com mais de três décadas continue a dividir dois países vizinhos e irmãos, com consequências devastadoras para as populações e para as economias da região.
Riqueza travada pelo conflito
O Presidente da União Africana voltou a sublinhar que a Região dos Grandes Lagos é uma das mais ricas do mundo, tanto em recursos naturais como em potencial humano.
“É rica em recursos hídricos, terras aráveis, florestas e minerais estratégicos, mas sobretudo rica pelas suas gentes. Este potencial poderia catapultar o desenvolvimento não apenas da região, mas de todo o continente africano”, afirmou João Lourenço.
Num contexto global marcado por crises energética e alimentar, o Chefe de Estado angolano destacou que África, e particularmente a RDC, poderia desempenhar um papel central na mitigação desses desafios, caso a paz fosse alcançada.
“Nada disso tem sido possível devido a um conflito que não faz sentido e que impede o aproveitamento pleno das vastas terras agrícolas e do regime de chuvas favorável da região”, acrescentou.
Uma crise prolongada e devastadora
A instabilidade no Leste da RDC remonta à década de 1990, após o afluxo massivo de refugiados da Guerra Civil do Rwanda, tendo dado origem a múltiplos conflitos armados ao longo de mais de 30 anos.
Segundo dados das Nações Unidas, o conflito já provocou milhões de mortos e o deslocamento de mais de sete milhões de pessoas, sendo considerado “uma das crises humanitárias mais prolongadas, complexas e graves do planeta”.
Desde 2022, a situação agravou-se com o ressurgimento do grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23), que no início de 2025 passou a controlar vastas áreas do Leste da RDC, incluindo as cidades estratégicas de Goma e Bukavu, capitais provinciais de Kivu do Norte e Kivu do Sul.
A ONU estima que, até ao final de 2024, até quatro mil soldados das Forças de Defesa do Rwanda terão sido mobilizados para apoiar o M23, acusação reiteradamente negada por Kigali.
Reconhecimento internacional ao papel de Angola
O contributo de Angola para a pacificação do continente africano, particularmente na Região dos Grandes Lagos, tem sido reconhecido internacionalmente, incluindo pelas Nações Unidas.
Um desses reconhecimentos foi expresso pelo enviado especial do Secretário-Geral da ONU para os Grandes Lagos, Huang Xia, que destacou, em Luanda, as abordagens diplomáticas consistentes e pragmáticas de Angola na resolução de conflitos africanos, com especial incidência na crise no Leste da RDC.