O diálogo entre o Executivo angolano e o Sindicato Nacional dos Professores (SINPROF) resultou, esta quinta-feira, num entendimento preliminar que abre caminho para a suspensão da greve anteriormente anunciada pela classe docente.
O Executivo angolano e o Sindicato Nacional dos Professores (SINPROF) alcançaram um entendimento durante as negociações realizadas esta quinta-feira, criando condições para que a greve anunciada pelos professores possa ser suspensa.
O encontro permitiu avanços significativos em alguns pontos do caderno reivindicativo apresentado pelo sindicato, com destaque para matérias relacionadas com promoções, actualização de carreiras, pagamento do décimo terceiro mês e outras preocupações ligadas à valorização dos profissionais da educação.
Professores em assembleias decisivas greve às aulas em análise em todo o país
O futuro imediato do ano lectivo 2025-2026 em Angola está, neste momento, nas mãos dos professores. Este sábado, docentes das 21 províncias do país reúnem-se em assembleias provinciais para decidir se avançam ou não para a greve interpolada às aulas, anunciada pelo Sindicato Nacional dos Professores Angolanos (SINPROF) com início previsto para 15 de janeiro. Em causa estão reivindicações antigas da classe, ligadas à valorização profissional, progressão na carreira e melhoria das condições salariais e laborais.
A mobilização nacional acontece depois da primeira ronda negocial entre o SINPROF e o Executivo, realizada na quinta-feira, em Luanda, sob mediação do Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTSS). O encontro permitiu alguns avanços, mas ficou aquém das expectativas do sindicato, que mantém a greve como possibilidade real, dependendo agora da decisão da base.
Consensos limitados, expectativas elevadas
À saída da reunião, o secretário-geral do SINPROF, Admar Jinguma, explicou à imprensa que apenas três dos 11 pontos do caderno reivindicativo obtiveram consenso com o Governo. Entre eles, destacam-se as promoções dos professores que ficaram estagnados desde 2021 e o nivelamento das carreiras, uma antiga exigência da classe docente.
“Há colegas que esperam há anos pela progressão na carreira. O entendimento alcançado neste ponto é positivo, mas não resolve todos os problemas que afectam o professor angolano”, afirmou Jinguma, sublinhando que outras reivindicações estruturantes continuam sem resposta concreta.

Entre os pontos ainda pendentes estão a melhoria significativa dos salários, a criação de melhores condições de trabalho nas escolas públicas, a redução do número excessivo de alunos por turma e a implementação efectiva de políticas de valorização da profissão docente.
A palavra final vem das províncias
Apesar de liderar o processo negocial, o SINPROF optou por devolver a decisão aos professores. As assembleias provinciais deste sábado servirão para analisar os resultados da negociação e definir, de forma democrática, se a greve avançará ou será suspensa.
“Não é uma decisão tomada de cima para baixo. São os professores, nas províncias, que vão avaliar se os consensos alcançados justificam ou não a suspensão da greve”, reforçou o secretário-geral do sindicato.
Em várias escolas, o ambiente é de expectativa e incerteza. Muitos docentes reconhecem os avanços obtidos, mas consideram-nos insuficientes face ao custo de vida e às dificuldades diárias enfrentadas nas salas de aula.
“Ensinar tornou-se um acto de resistência. Há salas sem carteiras suficientes, turmas superlotadas e salários que não acompanham a realidade económica”, desabafou um professor do ensino secundário em Luanda, que prefere não ser identificado.
Governo apela ao diálogo
Do lado do Executivo, o discurso mantém-se focado na abertura ao diálogo e na busca de soluções graduais. Fontes governamentais reiteram que o processo de negociação continua em curso e que os compromissos assumidos serão cumpridos dentro das possibilidades financeiras do Estado.
O Governo teme que uma paralisação no sector da Educação tenha impactos profundos no calendário escolar e no aproveitamento pedagógico de milhares de alunos em todo o país, sobretudo nas zonas mais vulneráveis.
Educação em ponto de viragem
A eventual greve dos professores surge num momento sensível para o sistema educativo angolano, marcado por esforços de reforma, aumento da procura escolar e desafios persistentes na qualidade do ensino. Para muitos analistas, o desfecho deste processo poderá definir um novo capítulo na relação entre o Estado e os profissionais da Educação.
Enquanto isso, pais e encarregados de educação acompanham com preocupação o desenrolar dos acontecimentos, temendo novas interrupções nas aulas, mas reconhecendo, em grande parte, a legitimidade das reivindicações dos docentes. Este sábado, 10 de Janeiro, as assembleias provinciais deverão clarificar o caminho a seguir. Greve ou entendimento, a decisão dos professores poderá marcar os próximos dias do ensino em Angola.