Kinshasa – Mais de 400 civis foram mortos desde o início da ofensiva do grupo armado M23, apoiado pelo Rwanda, na província de Kivu do Sul, no leste da República Democrática do Congo (RDC), segundo autoridades regionais. A situação agrava-se com a presença de forças especiais rwandesas em Uvira, cidade estratégica na extremidade norte do Lago Tanganica.
O recente surto de violência ocorre mesmo após a assinatura de um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos, na semana passada, entre os presidentes Félix Tshisekedi (RDC) e Paul Kagame(Ruanda), que obriga Kigali a cessar o apoio a grupos armados. O M23, que não participou diretamente das negociações, viola repetidamente o cessar-fogo acordado anteriormente, mantendo confrontos ativos com as forças congolesas.
De acordo com o porta-voz do governo de Kivu do Sul, Lawrence Kanyuka, mais de 413 civis, incluindo mulheres, crianças e jovens, morreram devido a balas, granadas e bombas em localidades entre Uvira e Bukavu, capital regional. “As forças presentes na cidade incluem tropas especiais do Rwanda e mercenários estrangeiros, em clara violação do cessar-fogo e dos acordos de Washington e Doha”, afirmou.
O M23 reivindica o controlo de Uvira desde a tarde de quarta-feira, após uma ofensiva relâmpago iniciada no início do mês. A cidade portuária é estratégica, devido à proximidade com Bujumbura, no Burundi, e ao acesso ao Lago Tanganica. Especialistas da ONU estimam que o M23 conte com cerca de 6.500 combatentes, apoiados por até 4 mil soldados rwandeses, apesar das negativas de Kigali.
O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Burundi, Edouard Bizimana, pediu que os EUA pressionassem Kagame para garantir a implementação do acordo, lembrando que “o M23 sem Kagame, sem o Rwanda, não é nada”.
A Embaixada dos EUA em Kinshasa também instou o M23 e as forças rwandesas a suspender imediatamente operações ofensivas e que as tropas de Kigali retornem ao seu território. Em contrapartida, o governo do Rwanda acusa as forças congolesas de violar o cessar-fogo, mantendo a tensão na região.
O conflito intensifica a crise humanitária na região, considerada uma das maiores do mundo. Mais de 7 milhões de pessoas encontram-se deslocadas, segundo a ONU, incluindo 200 mil desde 2 de dezembro, com mais de 70 mortes relatadas apenas neste período. Civis fugiram também para o Burundi, onde cidades fronteiriças como Rugombo sofreram bombardeamentos, aumentando o risco de expansão do conflito.